sexta-feira, 10 de outubro de 2014

As Violências das Bestas



 BAIXIO DAS BESTAS. Cláudio Assis, 2007. 80min. dolby digital. color.

O filme Baixio das Bestas (2006), de Cláudio Assis é um longa-metragem que aborda várias temáticas: exploração sexual infantil, violência sexual, vivências interioranas e na sua sutileza a exploração socioeconômica e a cultura local (Maracatu). Marcado por cenas violentas de sexo, ora entre Heitor (Fernando Teixeira) e sua neta, Auxiliadora (Mariah Teixeira), ora entre Cícero (Caio Blat), Everardo (Matheus Nachtergaele) e as meretrizes. Esses primeiros são jovens de classe média e têm se drogam e violentam por puro bel-prazer. Obra caracterizada pelo não-acontecimentos de fatos em temporalidade linear, onde os personagens dos diferentes núcleos pouco se convergem.
Claudio Assis iniciou seus em 1987 com o curta-metragem Henrique, dirigiu diversos curtas-metragens e documentários e só em 2002 dirigiu seu primeiro longa-metragem, Amarelo Manga, que teve boa recepção da crítica e ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais. Em 2006, dirigiu seu segundo longa, Baixio das Bestas, lançado no Festival de Cinema de Brasília, em 2007, filme que ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais. E em 2011, lança seu mais recente longa, Febre do Rato, que faz jus ao histórico de prêmios que os outros filmes ganhara. Assis é um cineasta de obras cinematográficas marcadas por conflitos acerca do corpo e violência, seus personagens caminham entre o sadismo e a delicadeza, entre a linguagem poética e os xingamentos, entre a carne e osso, como o próprio diz: “Meus personagens são de carne e osso”
Baixio faz uma desconstrução da tipificação atribuída ao nordeste, sobretudo ao sertão, ou melhor as cidades pequenas, que há as tradições, a pureza, os bons costumes, a tranquilidade e, consequentemente, a não-violência. E violência é o que de mais há na obra, ao início do longa já se fica claro a exploração sexual infantil, trazendo uma revolta, e cada vez que a cena revela mais homens mais revolta se revela, ao chegar a Cícero, percebe-se uma mescla de repúdio e desejo, primeiro por vê que o próprio avô explora a neta, segundo nota-se um desejo em seu olhar e sua permanência em vê-la, sem interceder. Certas violências presentes no filme ficam tão expostas que se não atentarmos às cenas no canavial pode-se perder ou não perceber uma violência ali exposta, a exploração sócio econômica, seja dia ou noite (queimadas) com trabalhadores de sol a sol e de lua a lua.
Em meio ao ambiente monótono e aparentemente sem ações, há diversas ações e ações escabrosas e repugnantes. Cícero e Everardo são também carros-chefes dessas violências, às prostitutas são tratadas como marionetes do prazer das “bestialidades” dos playboys locais. Everardo abre-alas de suas ações ao violentar sexualmente uma prostituta e pisar diversas vezes em sua cabeça por ela tentar se defender do ataque monstruoso.  Everardo se mostra o mais seco e violento dos playboys, pouco se importa ou se preocupa com os que ele age sobre e suas consequências, exemplo claro é quando ele e Cícero atropelam um rapaz na estrada, Cícero demonstra fragilidade, sentido que não pode fazer tudo o quer a hora que quer, já Everardo se mantem intacto, sádico e poético ao mesmo tempo. Metaforicamente a cena mais forte não é a explicita, ela se passa num lugar mágico e de riquezas, o cinema, e lá se passa a cena da total catarse, a revolta de ranger os dentes, onde Bela (Dira Paes) é imobilizada e estuprada pelas feras.

Auxiliadora se mantém virgem, apesar dos abusos do avô, que talvez seja também seu pai. Ela é uma personagem “sem falas”, sua fala é os sussurros, os espasmos, suas expressões, enfim, como a música cantada na primeira cena em que ela entra no veículo: “O que é que tu quer de mim? Que voz é essa? Que silêncio é este? Porque tu não falas o que estas pensando? ”. Apenas se manifesta com afago para com Maninho (Irandhir Santos), caso único, e mesmo assim é podada pelo ser avô. Sua contínua vida árdua de violência segue, a cada abuso do seu corpo, da sua alma, da sua inocência e da sua fala, o baixio fica mais baixo e a leva para baixo, sua situação pode ser comparada ao da monocultura da cana de açúcar: seu corpo primeiramente é queimado, assim não podendo se plantar ali outra coisa a não ser o que já se tem, depois é cortada e por fim vira bagaço, sua alma. O avô, por sua vez, ocupa a cabeça de sua neta, afinal, o próprio fala: “Ocupar a cabeça dessa menina se não o diabo toma de conta”. E de fato tomou.

domingo, 17 de agosto de 2014

Vocês



Penso em vocês quando estou a viver.
Desculpem-me, só quis versar poeticamente.
Tipo, só quis dizer que penso em vocês a cada respirar (inspirar e expirar).
Vocês Indagam:
— Outra poesia em minha homenagem?!
E eu respondo.
— Sim.
Me põem na parede.
— Por quê?
Me afasto (não muito) da parede.
— Por que não? Se apenas as boas lembranças ficaram,
Se o que prefiro recordar são apenas os bons momentos,
Se a cada olhar uma poesia se fazia,
Se a cada lábio, se a cada língua nossas relações se estabeleciam.
[Multilínguas, multiculturas, multisabores, multialmoços, multicachorros-quentes,
Multilasanhas...]
Se a cada música um rosto se desenha
Se a cada cheiro me transporto inconscientemente para os seus olhos.
Viajo nos nossos encontros, viajo legal...
Mas é isso, os problemas afastam...
Me empurram um pouco mais na parede.
— E o sentimento, é mesmo?
Tento responder de novo.
— O sentimento?
Olha, se eu disser que é o mesmo, estou mentindo,
Vocês sabem que creio naquela constante de infinitismo de mudanças.
Então... calma, vou responder...
O meu sentimento ainda é demasiado em ralação a vocês,
Diferente de antes, pelo motivo que já disse e vocês sabem
E sinceramente, o sentimento está a devir, numa crescente...
Não sei...
Só sei que é saudade.

07h07min 17/08/14

sexta-feira, 4 de julho de 2014

No Breu de Abril a Maio



E nenhum dos dois tiveram coragem
Para plantar o bom desejo que houve ali.

. . .

Mas o tempo passa e sempre passará
Passou e chegou.

. . .

Breu!

No espelho nos tornamos um só,
Havia aquela meia-luz romântica;
Aquele raio lunar que invade o recinto sobre o vidro quebrado da janela.
Havia aquele texto poético sussurrado,
Havia aquele diálogo banal e consequentemente essencial.

Suas formas se desenharam aos olhos daquele que pouco vê, no breu.
Nem todo olho felino enxerga bem à numbra.
Há uma penumbra,
Vejo linhas formadas por curvas

Luz!

Ainda no espelho nos tornamos um só
Minha pele, sua pele: Negras
Minha boca, sua boca: Carnudas
Meus olhos, seus olhos: Verdes e Castanhos
Meu cheiro, seu cheiro: só sinto o Seu
Cheiro este que fica impregnado no meu olfato durante toda saudade

Minha saliva brilha sobre sua pele
Sua saliva brilha sob meus olhos
Sua voz suave me pede para ir e para ficar
E então,
Eu vou e fico.

Julho D’Oliveira        06h40min 31/05/14




sexta-feira, 25 de abril de 2014

In Memoriam de um Outro Livro


Foi a primeira vez que um outro livro dormiu sob seu travesseiro. Sim, penso que naquela noite a virgindade se foi, naquela cama, naqueles lenções, naquelas cobertas et cetera, ali, in loco. Ali já se deitou e deleitou uma bíblia, um livro “dos sonhos”; daqueles que vem com os números da mega-sena e tudo, daqueles que nem se quer souberam que Freud existiu, mas tem vasto conhecimento sobre os sonhos, para cada inconsciência um déficit ou superávit.

Nunca vi outro tipo de livro sob aquele teto e consequentemente nunca sobre aquela cama, sei que lá se deita um corpus e suas intempéries. Nunca vi aquele corpus lendo um livro, nem os que já dormiram sob seu travesseiro, com certeza deve ler escondido. Minerva deve abençoar essa pessoa melhor, em sua solidão. O máximo que já vi aquela pessoa ler, foram: as intermináveis cinco linhas dos imensos folhetos que os Testemunhas de Jeová entregam-na todo sábado às 11h da manhã, faz parecer que a pessoa é parte do quórum e que sem ela as coisas não tem poder. Reza uma lenda que os Testemunhas vão nas casas nesse horário só para queimar o feijão dos visitados, já me disseram que essa é a meta, e quando é alcançada, algumas almas são salvas. Não sei, mas reza a lenda.

Falei, falei e nem falei como o tal outro livro chegou à cama virgem. Eu e meu livro – livro este que ganhei de uma gigantesca amiga que fizera até dedicatória depois da capa, como é de praxe – fomos ao recinto para o deleite, pena não ter leite e muito menos doce-de-leite, mas fomos com a priori de ler, já que a dona da cama não estava lá, um álibi ela tinha, tudo bem, melhor seguir... convidei um livro urbano e cotidiano, ele veio e me disse: “carpe diem!”. Respondi: “idem! Que assim seja”. E o aproveitei, li tais crônicas e alguns neurônios foram se unindo da mesma forma que minha sobrinha ia fazendo aquele castelo de lego, peça por peça, neurônio por neurônio. É preciso certo labor, mas quando o castelo fica pronto... é lindo, aquele monte de cores e suas curvas quadradas, de tanto laborioso, isso deveria entrar no curriculum vitae das crianças, “Cargos Anteriores: Construtor de castelos de lego”.

Após umas crônicas fui me rendendo aos braços de João Pestana, que provavelmente é o autor do livro “dos sonhos”.

06h00min 22/04/14

sábado, 19 de abril de 2014

O Poema do Poema ao Poema




O
    ”T” do concretismo é o tesão sem pecado e sem abominação.
 O “T” que desfila e versaliza pelo amor dos corpos. Um tezão para descrever o tanto
de Tesão
a pairar
sobre
o poema
que vos
pupila
abaixo,
ou de lado,
ou de quatro,
ou de frango,
eu prefiro...
assado.
10h00min 19/04/14







Poema inspirado no poema abaixo, ou de lado...


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Talvez Seja



Talvez seja o cansaço
Talvez seja o sistema
Talvez seja a imprensa
Talvez seja a falta de conhecimento
Talvez...
Talvez seja o comodismo,
Talvez seja o velho discurso: "Em quase todo lugar é assim, aqui não seria diferente".
Talvez seja o medo,
Talvez... talvez... talvez...
Talvez seja tudo.


18h56min 18/02/14